4. INTERNACIONAL 3.4.13

1. O MXICO PRONTO PARA DECOLAR
2. MAS A CORTE NO EST TO EMPOLGADA
3. UM MAGNATA, DUAS MORTES
4. E SE ESSA MODA PEGA?

1. O MXICO PRONTO PARA DECOLAR
O pas conseguiu reverter a perda de investimentos para a China afastando-se do estatismo e do protecionismo
TATIANA GIANINI, DA CIDADE DO MXICO

     Em meio  terra vermelha e aos arbustos do semirido mexicano, enormes galpes de trs andares se espalham pela periferia do municpio de Quertaro, 200 quilmetros ao norte da capital, a Cidade do Mxico. Os prdios pertencem a 32 companhias, entre fabricantes de aeronaves, de motores, prestadoras de servios e empresas de manuteno. O complexo ganhou envergadura a partir de 2006, com a aterrissagem da canadense Bombardier, concorrente mundial da brasileira Embraer. Nessa regio central do Mxico, so produzidas as fuselagens traseiras dos jatos Global 5000 e Global 6000, que depois seguem para a linha de produo no Canad. Em outras cidades, existem duas centenas de empresas do setor aeroespacial, que esto entre as principais razes por trs do crescimento de quase 4% registrado pela economia nacional em 2012  mais que o qudruplo do brasileiro. Depois de perder durante anos para a China os investimentos de empresas globais, o Mxico tornou-se uma opo vantajosa com o aumento dos salrios no pas asitico, atualmente apenas 20% mais baixos. Alm disso, com outros governos latino-americanos aplicando polticas improvisadas, protecionistas e estatizantes, o pas voltou a apimentar o paladar dos investidores. "Os mexicanos apostaram no longo prazo, enquanto o Brasil est tentando programas de alvio fiscal e de curta durao para estimular a economia", diz a americana Lisa Schineller, diretora da agncia de anlise de risco Standard & Poor's. "Essa volatilidade dos brasileiros tem um peso grande nas decises dos investidores", diz Lisa. 
     A sina mexicana comeou a mudar com a assinatura do Nafta, o tratado de livre-comrcio com os Estados Unidos e o Canad, em 1994. De imediato, o pas sofreu para adaptar a sua economia fechada e dominada por monoplios estatais ao cenrio de maior concorrncia. A sorte tambm no ajudou. Em 1995, a crise conhecida como "efeito tequila", que levou o peso a se desvalorizar 50%, fez o PIB cair 6,2%. Seis anos depois, o ataque s Torres Gmeas, em Nova York, arrefeceu a economia americana e, por extenso, a mexicana. Tambm em 2001, a China entrou na Organizao Mundial do Comrcio (OMC) e passou a competir ainda mais fortemente com o Mxico. Naquele perodo, a maior parte dos investimentos na Amrica Latina se concentrava no Brasil, que atraa por ser um exportador de commodities para a sia. A crise financeira de 2008 e 2009 afetou mais o Mxico que o Brasil. Da mesma maneira, a recuperao por l tambm foi mais intensa e, em 2010, ambos voltavam a crescer. 
     As duas naes ento seguiram caminhos opostos. O Brasil tomou medidas estatizantes, que espantaram os investidores. Elevou os impostos sobre transaes financeiras, forcou concessionrias de eletricidade a reduzir os lucros e sobretaxou os veculos importados. O governo mexicano, por outro lado, continuou abrindo a economia, com a aprovao dos empresrios e do Poder Legislativo. Apenas um dia aps tomar posse como presidente, em dezembro do ano passado, Enrique Pea Nieto conseguiu que os trs principais partidos do pas, o velho PRI, o catlico PAN e o esquerdista PRD, assinassem um acordo para aprovar reformas essenciais, o denominado Pacto pelo Mxico. Entre os 95 compromissos, esto o aumento da competitividade, o desmembramento dos monoplios e o fim da poltica de subsdios. Aos olhos dos mexicanos, os subsdios governamentais, como o que barateia o preo da gasolina, utilizam o dinheiro de todos os contribuintes para beneficiar a fatia mais rica da populao, aquela que tem carro. 
     Enquanto o Brasil est amarrado pelo Mercosul e passa por apuros constantes com seu principal parceiro comercial na regio, a Argentina, o Mxico tem tratados de livre-comrcio com 44 pases. A dependncia em relao  economia dos Estados Unidos, que era destino de 89% das exportaes em 2000, diminuiu. Agora est em 79%. Para as empresas, os tratados significam ter acesso aos melhores insumos e aos maiores mercados consumidores. Da linha de montagem da montadora americana GM, localizada na cidade de Ramos Arizpe, saem os modelos Captiva, Sonic e Cadillac SRX. Colado no vidro de cada um deles, h um adesivo com o destino dos automveis, que pode ser Ontrio, no Canad, Xangai, na China, Nova Jersey, nos Estados Unidos, e Gravata, no Brasil. Os preos so 45% mais baixos que os cobrados aqui, uma vez que um carro mexicano  formado com peas do mundo todo. "Os clientes que visitam as concessionrias no Mxico no querem comprar carros brasileiros. Eles sabem que no Brasil h uma exigncia de que determinada proporo das peas seja nacional, o que afeta a qualidade e infla o preo", diz o economista Luis de la Calle. A diferena nos valores levou o governo brasileiro a impor uma cota de importao aos carros mexicanos em 2012. "Esses limites, ao mesmo tempo em que protegem as empresas do setor, so um fardo para os compradores brasileiros", diz La Calle. 
     Alm dos galpes das fbricas, instalaram-se no pas escritrios de publicidade, telecomunicaes e informtica. O Mxico  hoje um dos principais centros da Amrica Latina para o setor de servios. S a rea de tecnologia da informao concentra mais de 700 empresas. Um estudo da consultoria Jones Lang LaSalle mostrou que a Cidade do Mxico tem mais metros quadrados de escritrios do que So Paulo ou Miami. "Tudo aqui  mais barato, e as universidades so to boas quanto as brasileiras", diz a paulistana Ana Carolina Hevia, de 37 anos, que se mudou para a capital mexicana para instalar na cidade uma agncia de publicidade especializada em internet e plataformas digitais. 
     As transformaes da economia mexicana reverberaram na poltica e na sociedade. A tolerncia com os monoplios estatais diminuiu da mesma maneira que a aceitao de grupos autoritrios no poder. O PRI, que governou por sete dcadas e voltou  Presidncia no ano passado, no  mais dominante e disputa as eleies em igualdade com os demais partidos. Os principais indicadores sociais melhoraram consideravelmente. O relatrio do ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado no ms passado pelas Naes Unidas na Cidade do Mxico mostrou que os mexicanos vivem mais e dedicam mais horas aos estudos que os brasileiros (leia o quadro ao lado). Os graduados em engenharia, em geral os profissionais mais requisitados por uma economia em desenvolvimento, passaram de 114.000 em 2010. No Brasil, que tem quase o dobro da populao mexicana, o total de formandos na rea no mesmo ano foi de 41.000, menos da metade do necessrio para o pas sustentar um crescimento expressivo, segundo o Instituto de Pesquisas Econmicas Aplicadas (Ipea). Mesmo com diplomados em maior nmero, a demanda mexicana absorve rapidamente a todos. Os trinta alunos de engenharia mecnica que se graduam por ano na Universidade Iberoamericana, na Cidade do Mxico, tm uma taxa de contratao de 100%. Melhor de tudo, esses jovens j no dependem do governo para arrumar um emprego, como ocorria durante o governo anterior, do PRI. 
     Na condio ainda de pas emergente, o Mxico tem desafios importantes pela frente. Na rea econmica, o governo precisar aprovar as reformas fiscal e energtica, includas nas propostas do Pacto pelo Mxico. A estatal do petrleo Pemex  uma das menos competitivas do setor. Sem investimentos suficientes em explorao, a produo caiu de 3 milhes de barris dirios em 2000 para 2,5 milhes em 2012. Ao mesmo tempo, o nmero de empregados da empresa passou de 132.000 para mais de 150.000. "Perto da Pemex, a Petrobras parece o melhor dos mundos. Claro que no  assim. Deveramos ter a colombiana Ecopetrol, que no  monopolista, como modelo", diz Juan Pardinas, diretor do Instituto Mexicano para a Competitividade. O narcotrfico tambm est na lista de problemas, mas um pouco apagado. Ao contrrio do presidente Felipe Caldern, do PAN, que entre 2006 e 2012 centrou sua poltica nesse tema, Pea Nieto optou por fazer menos barulho em torno do assunto, sem deixar de combater as gangues. Como a questo no ser resolvida em seis anos, dar nfase a ela seria um tiro no p. 
     O aumento da renda, que no Mxico no foi acompanhado pela alta no custo de vida, levou mais da metade da populao a integrar a classe media.  um pblico menos propenso ao discurso da vitimizao, em que os pobres so usados como justificativa para minar as qualidades do mercado. A adeso a essas ideias ainda  grande nas cidades do sul, distantes dos Estados Unidos e, portanto, menos desenvolvidas. Em 2006, o candidato de esquerda Andrs Manuel Lpez Obrador, do PRD, popular no sul, ficou em segundo lugar nas eleies presidenciais. No ltimo pleito, viu seu apoio cair 4 pontos percentuais. Os movimentos armados no sul tambm silenciaram. Em 1994, o autointitulado subcomandante Marcos liderou o Exrcito Zapatista de Libertao Nacional (EZLN), da regio de Chiapas, num levante contra o Nafta, o acordo de livre-comrcio da Amrica do Norte. Na confuso, o EZLN chegou a tomar a cidade histrica de San Cristbal de las Casas. O mascarado foi identificado como Rafael Sebastin Guilln Vicente, de Tamaulipas, um estado desenvolvido do norte, que estudou filosofia na universidade e migrou para o sul. Mais por marketing revolucionrio do que por necessidade, ele continua usando a balaclava preta e virou uma figura mais folclrica do que influente. Marcos e seus mascarados tornaram-se obsoletos. No incio deste ano, ele disse que divulgar uma "srie de iniciativas de carter civil e pacfico". Os mexicanos, animados com as promessas da economia de mercado, no aceitariam outra coisa.

O BRASIL COME POEIRA

COM UMA ECONOMIA ESTVEL...
Inflao (em %, em 2012)
MXICO: 3,6
BRASIL: 5,8
Taxa de investimento (em % do PIB)
MXICO: 21,5
BRASIL: 18

...E DE ALTA COMPETITIVIDADE,...
Carga tributria total 9em % do PIB)
MXICO: 18
BRASIL: 36,3
Tempo mdio para abrir uma empresa (em dias)
MXICO: 9
BRASIL: 119
Imposto sobre folha de pagamentos (em %, em 2011)
MXICO: 11
BRASIL: 29
Participao dos industrializados nas exportaes (em %)
MXICO: 73
BRASIL: 34

...O MXICO RECUPEROU-SE DO BAQUE SOFRIDO NA CRISE DE 2008...
Crescimento do PIB (em %)
MXICO: 2002  0,1; 2012  3,9.
BRASIL: 2002  2,7; 2012  0,9.

...E ENCONTROU UM CAMINHO MAIS RPIDO PARA O DESENVOLVIMENTO
Posio no ranking do ndice de Desenvolvimento Humano (IDH)
MXICO: 61
BRASIL: 85
Escolaridade (em anos de estudo)
MXICO: 8,5
BRASIL: 7,2
Taxa de mortalidade infantil (por 1000 nascidos vivos)
MXICO: 17,3
BRASIL: 21,2
PIB per capita (em dlares, em PPP [paridade do poder de compra, calculada considerando o ndice de custo de vida])
MXICO: 12.776
BRASIL: 10.278
Taxa de homicdios (por 100.000 habitantes)
MXICO: 14,3
BRASIL: 22

Fontes: FMI, Fiesp, Instituto mexicano para a Competitividade (Imco) e Mxico Evala.

PARA A INVEJA DO BRASIL
     No dia 14 de maro, o Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgou na Cidade do Mxico a edio de 2013 de seu Relatrio de Desenvolvimento Humano. O Mxico conquistou a 61 posio no ranking que calcula a qualidade de vida em 187 pases. Com um ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,775  sendo 1 o mximo , o pas est 24 posies  frente do Brasil, com um IDH de 0,730. o Pnud citou entre os mritos mexicanos a elevada expectativa de vida (77 anos, contra 73 dos brasileiros), o aproveitamento dos mercados mundiais e a inovao nas polticas sociais. "Nosso pas teve melhoras nas trs dimenses bsicas do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudvel, acesso ao conhecimento e um nvel de vida digno", disse o presidente mexicano Enrique Pea Nieto, que esteve presente e discursou no evento. 
     Para no passar vergonha em escala global, o governo brasileiro imediatamente contestou o relatrio. Alegou que as estatsticas usadas para a definio do IDH estavam defasadas. O rgo da ONU refez docilmente as contas e divulgou que o novo ndice, usando outros valores, seria de 0,754, o que permitiria ao Brasil avanar dezesseis posies, ficando no mesmo patamar do Cazaquisto (69), mas ainda longe do Mxico. A manobra de ltima hora, contudo, no alterar o ranking. Para que isso fosse feito de forma justa, os dados de todos os demais pases tambm teriam de ser atualizados. Melhor  acreditar que no h mesmo razo para socorrer o ego dos nossos funcionrios. No IDH, o Brasil esta na mesma posio da Jamaica, logo acima da ex-sovitica Armnia e do Equador. Resta-nos invejar os mexicanos. 


2. MAS A CORTE NO EST TO EMPOLGADA
Os juzes da Suprema Corte analisam a constitucionalidade do casamento gay e deixam no ar a impresso de que talvez esse seja um avano para o qual os EUA ainda no esto preparados.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Nenhuma proposta ganha mais apoio na sociedade americana do que o casamento gay. Desde 2004, a ideia de permitir o matrimnio entre pessoas do mesmo sexo no passava um ano sem atrair mais defensores at que, em algum momento no fim de 2010, se deu a virada: o casamento gay passou a ter o apoio da maioria da opinio pblica dos Estados Unidos. E, de l para c, conquista adeptos a um ritmo de 2 pontos percentuais por ano. Entre os jovens com menos de 30 anos, parcela que obviamente ter peso crescente no eleitorado, os gays do de lavada: mais de 80% so a favor. O presidente Barack Obama, depois de uma longa viagem de titubeios e volteios ao sabor das convenincias polticas, finalmente anunciou, no ano passado, apoiar o casamento gay. Na posse do segundo mandato, disse que "nossa jornada no estar completa at que nossos irmos e irms gays sejam tratados como todos os outros perante a lei". Nas ltimas semanas, uma cascata de polticos veio a pblico defender a proposta, inclusive estrelas republicanas, para as quais, at poucos anos atrs, a ideia era um antema. Tudo sugere que o casamento gay  uma bandeira cujo tempo chegou. 
     Mas a Suprema Corte no est, aparentemente, to convencida. Na semana passada, os juzes abriram a corte para uma audincia pblica sobre dois casos. Um diz respeito  Proposio 8, lei aprovada pelos eleitores da Califrnia em 2008 que probe o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O outro, menos relevante,  sobre um captulo da lei federal que define o matrimnio como a unio "entre um homem e uma mulher", ceifando direitos dos casais gays nos estados em que o casamento homossexual  legal. Os debates sinalizaram que a tendncia dos juzes  derrubar essa lei, estendendo benefcios federais aos casais gays. No caso da Proposio 8, h trs decises possveis (veja o quadro na pgina seguinte). Os juzes podem deixar tudo como est ou, no outro extremo, legalizar o casamento gay no pas todo  o que seria uma deciso espetacular pelo alcance e pelo impacto. A deciso final sai at junho. Mas, nos debates de tera e quarta-feira, as perguntas e dvidas dos magistrados deixaram transparecer que eles podem estar pensando que no  hora de decises espetaculares. 
     At a juza Snia Sotomayor, a primeira latina da corte e cujas posies so abertamente liberais, ponderou que talvez os estados americanos devam permanecer livres para tomar a deciso que quiserem, como tem acontecido at agora. Entre os cinquenta estados, nove legalizaram o casamento gay, outros tantos tm alguma forma de unio civil e os demais probem a oficializao da relao homossexual. Samuel Alito, juiz conservador, tambm externou receio de que a legalizao seja prematura ao indagar se a corte deveria endossar uma "instituio mais nova que os celulares e a internet". 
     Mesmo entre defensores do casamento gay, h um temor de que a legalizao agora acabe endurecendo uma oposio que tende a se suavizar nos prximos anos. O paralelo histrico mais citado ocorreu em 1954, quando a Suprema Corte proibiu a segregao racial nas escolas. A reao, tanto no sul quanto no norte, foi to intensa que acabou resultando na "ressegregaco racial". Num simpsito jurdico recente, a juza Ruth Ginsburg, firme defensora do aborto, fez outra analogia. Questionou se a legalizao do aborto, em 1973, no teria sido prematura, cristalizando uma oposio que se manifesta at hoje. Disse ela: "No que a deciso tenha sido errada, mas talvez tenhamos ido longe demais rpido demais". 
     O estatstico Nate Silver, autor de The Signal and the Noise (O Sinal e o Rudo), estudou pesquisas dos ltimos dezessete anos e concluiu que o casamento gay avana 2 pontos percentuais por ano e ter apoio esmagador nos EUA at 2016. Ser que a Suprema Corte deve deixar a sociedade americana ir criando esse consenso? 
     No debate da semana passada, no apareceu argumento capaz de reverter essa tendncia. O advogado Charles Cooper, em defesa da Proposio 8, disse que gays devem ser impedidos de casar porque o objetivo do casamento  a procriao. O juiz Stephen Breyer indagou se o estado deveria proibir o casamento de estreis. "No", respondeu Cooper. A juza Elena Kagan quis saber se o estado deveria proibir o casamento de homens e mulheres acima dos 55 anos. Cooper arrancou gargalhadas da plateia com a resposta: "Mas em casais acima de 55 anos  raro que ambas as partes sejam inferteis". A plateia ainda ria do tropeo biolgico de Cooper quando Kagan esclareceu: "Posso lhe assegurar que o casamento entre um homem e uma mulher de 55 anos no render muito frutos". Mais gargalhadas. Alm de risvel, o argumento talvez no conquiste os magistrados. Na bancada, estavam Clarence Thomas, casado e sem filhos, e John Roberts, presidente da corte, pai de dois filhos adotados. 

O LABIRINTO LEGAL
Um dos casos sob anlise da Suprema Corte  a Proposio 8, que probe o casamento gay na Califrnia. Os opositores alegam que a proibio viola a Constituio. Os magistrados podero...

1- ...APROVAR A PROPOSIO 8
Resultado - Os estados seguem livres para proibir ou autorizar o casamento gay, como acontece hoje

2- ...DERRUBAR A PROPOSIO 8 ALEGANDO QUE...
...a proibio do casamento gay  inconstitucional. 
Resultado: cai a proibio ao casamento gay em 38 estados. [Alasca, Hava, Califrnia, Oregon, Nevada, Montana, Idaho, Utah, Arizona, Dakota do Norte, Wyoming, Colorado, Texas, Dakota do Sul, Nebraska, Kansas, Oklahoma, Louisiana, Monnesota, Missouri, Arkansas, Mississippi, Winconsin, Illinois, Kentucky, Tenessee, Alabama, Michigan, Indiana, West Virginia, Virgnia, Gergia, Flrida, Ohio, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Pensilvnia, Delaware]
...a Califrnia no pode oferecer aos gays todos os benefcios e encargos do casamento via unies civis, e subtrair-lhes o direito ao casamento. 
Resultado: caem as leis conhecidas como tudo menos casamento em 9 estados. [Hava, Califrnia, Oregon, Nevada, Winconsin, Illinois, Rhode Island, Nova Jersey, Delaware]
...a Califrnia no pode suprimir o direito ao casamento gay j estabelecido pela Suprema corte estadual. 
Resultado: restabelece-se o casamento gay na Califrnia, mas a deciso no atinge outros estados [Califrnia]

3- ...DECIDIR-SE PELA FALTA DE LOCUS STANDI
Traduzindo  Os defensores da Proposio 8 no tm legitimidade  locus standi  para recorrer da deciso da Justia da Califrnia, que autorizou o casamento gay.
Resultado: restabelece-se o casamento gay na Califrnia, mas a deciso no atinge outros estados. [Califrnia]

Fontes: The New York Times e Enciclopdia Britannica.


3. UM MAGNATA, DUAS MORTES
Boris Berezovsky, que desagradou de Vladimir Putin ao Corinthians, foi encontrado morto na Inglaterra. Mas ele era um homem acabado fazia algum tempo.
MRIO SABINO, DE PARIS

     O colapso da Unio Sovitica e a passagem dos bens do estado comunista para neocapitalistas bem relacionados no Kremlin originaram um tipo peculiar: o magnata russo. Ele compra propriedades luxuosas na Europa, de preferncia na vizinhana de nobres. Troca de mulheres to belas e jovens quanto altssimas a cada dois ou trs anos. Fecha para consumo exclusivo lojas de grife de Paris e outras capitais internacionais. Distribui somas de dinheiro to gordas quanto as babushkas de seu pas natal. Recentemente, em um restaurante em Roma, VEJA soube de um casal russo que deu 1000 euros ao matre que o recebeu  porta, afora as gorjetas de mesmo quilate distribudas ao longo da noite. Qual  a diferena entre magnatas russos e seus congneres chineses e rabes? Eles vestem-se  ocidental, manejam razoavelmente os talheres e falam russo, ora. Boris Berezovsky, encontrado morto aos 67 anos, no banheiro da casa em que morava, na cidade de Ascot, prxima a Londres, foi o eptome do magnata russo at cometer um passo em falso  desafiar o incontrastvel presidente Vladimir Putin. 
     Berezovsky tornou-se conhecido dos brasileiros por causa do Corinthians, no imbrglio que resultou da parceria entre o clube paulista e o iraniano, naturalizado ingls, Kia Joorabchian. Em 2004, o Corinthians e a MSI, empresa do anglo-iraniano, associaram-se para montar um time com astros nacionais e internacionais. Durante dois anos, a coisa funcionou. Em 2006, porm, Kia comeou a mostrar mais interesse em patrocinar clubes ingleses do que o Corinthians. No ano seguinte, a Justia brasileira acatou uma denncia do Ministrio Pblico Federal que acusava o dono da MSI, dirigentes corintianos e Boris Berezovsky de formarem uma quadrilha para lavar dinheiro por meio da venda e emprstimo de jogadores ao time. Kia  seria um laranja do magnata russo. O anglo-iraniano admitiu que representava os interesses legtimos de um ricao da Rssia, sim, mas um tal de Rafael Filinov. VEJA apurou que Berezovsky em breve seria ouvido no Brasil. O magnata s fez uma exigncia ao buscar um advogado no outro lado do mundo: que fosse de origem judaica como ele. 
     A histria com o Corinthians estava longe de ser o maior problema de Berezovsky. Na noite anterior  sua morte, um jornalista o encontrou num hotel londrino. Ele se mostrava deprimido e sua mo direita tremia muito. Era um homem bem diferente do que chegara havia treze anos ao Ocidente, dono de uma fortuna estimada em at 6 bilhes de dlares, construda sob os auspcios da nomenklatura. Depois de ajudar Bons Ieltsin, Berezovsky decidiu bancar a candidatura de Putin  e desentendeu-se com ele aps criticar o presidente por sua atuao desastrada no acidente com o submarino Kursk, em 2000, motivo que o levou a exilar-se na Inglaterra. A partir de ento, tentou desestabilizar Moscou apoiando exilados, como o ex-agente secreto Alexander Litvinenko, que morreu envenenado por radiao, provavelmente a mando do Kremlin. A obsesso pela poltica sangrou seus negcios na Rssia e fora dela, assim como as disputas judiciais. Pouco antes de morrer, ele perdeu uma disputa com Roman Abramovich, dono do time Chelsea, a quem acusava de t-lo passado para trs numa empresa petrolfera. Conta: entre 50 milhes e 170 milhes de libras. Sua ltima ex-mulher pedia 200 milhes de libras, depois que uma anterior levou entre 100 e 200 milhes. Berezovsky teve de arcar com vrias boladas nas costas, e no fim da vida morava de favor em uma casa que um dia fora sua. A causa da morte continua indefinida. Os peritos ingleses submeteram amostras do seu corpo a um laboratrio especializado em contaminao radioativa. Desconfia-se da repetio do mtodo utilizado contra Litvinenko. Mas Berezovsky j havia morrido antes de morrer. Por que matar um inimigo duas vezes?


4. E SE ESSA MODA PEGA?
Confiscaram os cidados para salvar Chipre e evitar que o pas sasse da zona do euro.

     Na madrugada que precedeu o novo acordo de salvao de Chipre, o recm-eleito presidente do pas, Nicos Anastasiades, foi de uma sutileza mediterrnea diante da resistncia da diretora-gerente do Fundo Monetrio Internacional, a francesa Christine Lagarde  cuja severidade dos cabelos brancos contrasta com as peraltices que ela fez em casa, quando era ministra de Nicolas Sarkozy, para favorecer o empresrio trs ami Bernard Tapie. Ao ouvir de Christine, pela ensima vez, que o pacote de ajuda deveria incluir o confisco de parte das economias dos pequenos correntistas, Anastasiades tonitruou: "Se a senhora quer que eu me demita, acabemos logo com isso!". Ele ganhou no grito uma soluo que, embora mais palatvel, corta os dutos de dinheiro que fizeram de Chipre uma tranquila lavanderia dos russos at eclodir a crise na Grcia, da qual os bancos cipriotas levaram um calote que o governo no conseguiu cobrir. 
     O primeiro pacote de ajuda previa a taxao das contas de todos os correntistas, fossem ricos ou remediados. O aprovado na semana passada liquida o Laiki Bank e reestrutura o Bank of Cyprus, as duas maiores ameaas ao sistema financeiro do pas. Em troca de 10 bilhes de euros de emprstimo, Chipre tambm arrecadar entre 4 e 6 bilhes por meio de um imposto de 40% sobre os depsitos acima de 100.000 euros. A troica FMI, BCE e Comisso Europeia estabeleceu, ainda, um limite para saques e transferncias a todas as instituies, como forma de evitar a fuga macia de capitais. 
     Os cidados protestaram contra o plano B, assim como fizeram em relao ao A, agora com menos virulncia. E os russos abaixaram o tom da gritaria, talvez porque o pessoal de Putin e Medvedev tivesse repatriado secretamente um bom pedao dos seus bilhes. Chipre foi a quinta nao da zona do euro a pedir gua, aps Grcia, Espanha, Portugal e Irlanda. Seu tamanho  minsculo, mas o precedente  preocupante. Com Itlia e Frana em recesso, teme-se que, para aliviar o caixa, tais colossos usem o modelo de confisco de contas bancrias. O holands Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, que rene ministros da Fazenda do continente, admitiu a hiptese. A troica afirmou que Chipre era um caso nico. A Europa no confia. 
M.S., DE PARIS

